Ano 2009

Sobre o tema

A literatura brasileira do século XX frequentemente utilizou a casa como metáfora da decadência das oligarquias rurais. No romance 'Crônica da Casa Assassinada', de Lúcio Cardoso, a casa dos Meneses não é apenas um cenário, mas um símbolo vivo da ruína da aristocracia mineira. Através de uma descrição minuciosa de objetos antigos, cristais embaçados e pratas empoeiradas, o autor constrói um ambiente que respira o esplendor perdido e a desagregação iminente. Esse recurso expressivo transforma o espaço físico em testemunho de um processo histórico e social, permitindo ao leitor perceber a crise de valores e a passagem do tempo como forças corrosivas. Compreender essa técnica é essencial para analisar obras que abordam a transição do Brasil rural para o urbano e a perda de poder das elites agrárias.

Tópicos relacionados

  • Decadência da aristocracia rural na literatura
  • Simbolismo da casa em romances brasileiros
  • Lúcio Cardoso e o romance psicológico
  • Crônica da Casa Assassinada: análise
  • Recursos expressivos de descrição de ambientes

Enunciado

Como se assistisse à demonstração de um espetáculo mágico, ia revendo aquele ambiente tão característico de família, com seus pesados móveis de vinhático ou de jacarandá, de qualidade antiga, e que denunciavam um passado ilustre, gerações de Meneses talvez mais singelos e mais calmos; agora, uma espécie de desordem, de relaxamento, abastardava aquelas qualidades primaciais. Mesmo assim era fácil perceber o que haviam sido, esses nobres da roça, com seus cristais que brilhavam mansamente na sombra, suas pratas semi- empoeiradas que atestavam o esplendor esvanecido, seus marfins e suas opalinas – ah, respirava-se ali conforto, não havia dúvida, mas era apenas uma sobrevivência de coisas idas. Dir-se-ia, ante esse mundo que se ia desagregando, que um mal oculto o roía, como um tumor latente em suas entranhas.

CARDOSO, L. Crônica da casa assassinada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002 (adaptado).

O mundo narrado nesse trecho do romance de Lúcio Cardoso, acerca da vida dos Meneses, família da aristocracia rural de Minas Gerais, apresenta não apenas a história da decadência dessa família, mas é, ainda, a representação literária de uma fase de desagregação política, social e econômica do país. O recurso expressivo que formula literariamente essa desagregação histórica é o de descrever a casa dos Meneses como

Alternativas

  • A)

    Ambiente de pobreza e privação, que carece de conforto mínimo para a sobrevivência da família.

  • B)

    Mundo mágico, capaz de recuperar o encantamento perdido durante o período de decadência da aristocracia rural mineira.

  • C)

    Cena familiar, na qual o calor humano dos habitantes da casa ocupa o primeiro plano, compensando a frieza e austeridade dos objetos antigos.

  • D)

    Símbolo de um passado ilustre que, apesar de superado, ainda resiste à sua total dissolução graças ao cuidado e asseio que a família dispensa à conservação da casa.

  • E)

    Espaço arruinado, onde os objetos perderam seu esplendor e sobre os quais a vida repousa como lembrança de um passado que está em vias de desaparecer completamente.

0.0 (0 avaliacoes)

Avaliar: +1 XP. Favoritar: salva pra revisar. Comentar: +5 XP + 1 credito IA.

Comentarios (0)

Login obrigatorio

Carregando comentarios...

Perguntar pra IA

Perguntas frequentes

Qual a importância da casa como símbolo na literatura?

A casa frequentemente representa o status social, a memória familiar e a estabilidade. Sua degradação física reflete a decadência moral e econômica dos personagens, sendo um recurso narrativo poderoso.

Quem foi Lúcio Cardoso e qual sua contribuição para a literatura brasileira?

Lúcio Cardoso (1912-1968) foi um escritor mineiro, autor de romances psicológicos que exploram o declínio das famílias tradicionais. Sua obra mais conhecida é 'Crônica da Casa Assassinada', considerada um marco do romance introspectivo no Brasil.

Como a descrição de objetos antigos contribui para a atmosfera decadente no trecho?

Objetos como cristais, pratas e marfins outrora valiosos, agora empoeirados e sem brilho, indicam que a família vive de lembranças de um passado glorioso, mas não consegue manter o cuidado necessário, simbolizando a ruína iminente.