Sobre o tema
Raduan Nassar, escritor brasileiro de origem libanesa, é conhecido por sua prosa densa e crítica social. Sua novela "Um Copo de Cólera", publicada em 1978, retrata um confronto verbal entre um casal de amantes, em que o narrador expressa uma visão niilista e desmistificadora de valores tradicionais como amor, família e religião. A obra é ambientada no contexto da ditadura militar brasileira (1964-1985), período de repressão política e censura. O discurso do narrador reflete a desilusão de uma geração que questionava as instituições e os discursos autoritários. A linguagem agressiva e cortante do texto I evidencia a recusa em aceitar os valores impostos pela ordem social e política, revelando uma crítica contundente ao humanismo ingênuo e à hipocrisia das instituições.
Tópicos relacionados
- Literatura brasileira na ditadura militar
- Análise de discurso em Raduan Nassar
- Niilismo e crítica social na literatura
- Contexto histórico da obra Um Copo de Cólera
- Desconstrução de valores humanitários
Enunciado
Texto I
\[…\] já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio — definitivamente fora de foco — cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes \[…\].
NASSAR, R. Um copo de cólera. São Paulo:
Companhia das Letras, 1992.
Texto II
Raduan Nassar lançou a novela Um Copo de Cólera em 1978, fervilhante narrativa de um confronto verbal entre amantes, em que a fúria das palavras cortantes se estilhaçava no ar. O embate conjugal ecoava o autoritário discurso do poder e da submissão de um Brasil que vivia sob o jugo da ditadura militar.
COMODO, R. Um silêncio inquietante. IstoÉ. Disponível em:
http://www.terra.com.br. Acesso em: 15 jul. 2009.
Considerando-se os textos apresentados e o contexto político e social no qual foi produzida a obra Um Copo de Cólera, verifica-se que o narrador, ao dirigir-se à sua parceira, nessa novela, tece um discurso
Alternativas
- A)
Conformista, que procura defender as instituições nas quais repousava a autoridade do regime militar no Brasil, a saber: a Igreja, a família e o Estado.
- B)
Pacifista, que procura defender os ideais libertários representativos da intelectualidade brasileira opositora à ditadura militar na década de 70 do século passado.
- C)
Desmistificador, escrito em um discurso ágil e contundente, que critica os grandes princípios humanitários supostamente defendidos por sua interlocutora.
- D)
Politizado, pois apela para o engajamento nas causas sociais e para a defesa dos direitos humanos como uma única forma de salvamento para a humanidade.
- E)
Contraditório, ao acusar a sua interlocutora de compactuar com o regime repressor da ditadura militar, por meio da defesa de instituições como a família e a Igreja.
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Perguntas frequentes
Qual é o contexto histórico de 'Um Copo de Cólera'?
A novela foi publicada em 1978, durante a ditadura militar brasileira. O confronto entre os amantes reflete o autoritarismo e a repressão do regime, além da polarização política da época.
Como Raduan Nassar utiliza a linguagem para criticar a sociedade?
Nassar emprega uma prosa cortante e agressiva, com frases curtas e repetições, para expressar a fúria e a desilusão do narrador. Essa linguagem desconstrói discursos idealizados sobre amor, família e humanidade.
O que significa o niilismo na obra de Nassar?
O narrador rejeita todos os valores tradicionais (amor, amizade, família, igreja) como ilusórios, adotando uma postura cínica e indiferente. Essa visão niilista critica a hipocrisia social e a falta de autenticidade nas relações.
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