Sobre o tema
A linguagem é um fenômeno vivo e dinâmico, sujeito a mudanças e extinções de palavras ao longo do tempo. O texto 'Palavras jogadas fora' discute o verbo 'pinchar', usado no interior de São Paulo com o sentido de 'jogar fora' ou 'mandar embora', e reflete sobre os motivos que levam ao abandono de certos vocábulos. A reflexão aponta que, além da gramática normativa, fatores socioculturais e preconceitos linguísticos influenciam a extinção de palavras, associando-as a grupos considerados de menor prestígio. Compreender esse processo é essencial para valorizar a diversidade linguística e combater preconceitos, mostrando que a língua é moldada por dinâmicas sociais e históricas.
Tópicos relacionados
- Preconceito linguístico e variação
- Extinção de palavras na língua
- Variação regional do português
- Gramática normativa versus uso
- Preservação do patrimônio linguístico
Enunciado
Palavras jogadas fora
Quando criança, convivia no interior de São Paulo com o curioso verbo pinchar e ainda o ouço por lá esporadicamente. O sentido da palavra é o de “jogar fora” (pincha fora essa porcaria) ou “mandar embora” (pincha esse fulano daqui). Teria sido uma das muitas palavras que ouvi menos na capital do estado e, por conseguinte, deixei de usar. Quando indago às pessoas se conhecem esse verbo, comumente escuto respostas como “minha avó fala isso”. Aparentemente, para muitos falantes, esse verbo é algo do passado, que deixará de existir tão logo essa geração antiga morrer. As palavras são, em sua grande maioria, resultados de uma tradição: elas já estavam lá antes de nascermos. “Tradição”, etimologicamente, é o ato de entregar, de passar adiante, de transmitir (sobretudo valores culturais). O rompimento da tradição de uma palavra equivale à sua extinção. A gramática normativa muitas vezes colabora criando preconceitos, mas o fator mais forte que motiva os falantes a extinguirem uma palavra é associar a palavra, influenciados direta ou indiretamente pela visão normativa, a um grupo que julga não ser o seu. O pinchar, associado ao ambiente rural, onde há pouca escolaridade e refinamento citadito, está fadado à extinção?
É louvável que nos preocupemos com a extinção de ararinhas-azuis ou dos micos-leão-dourados, mas a extinção de uma palavra não promove nenhuma comoção, como não nos comovemos com a extinção de insetos, a não ser dos extraordinariamente belos. Pelo contrário, muitas vezes a extinção das palavras é incentivada.
VIARO, M. E. Língua Portuguesa, n. 77, mar. 2012 (adaptado).
A discussão empreendida sobre o (des)uso do verbo “pinchar” nos traz uma reflexão sobre a linguagem e seus usos, a partir da qual compreende-se que:
Alternativas
- A)
As palavras esquecidas pelos falantes devem ser descartadas dos dicionários, conforme sugere o título.
- B)
O cuidado com espécies animais em extinção é mais urgente do que a preservação de palavras.
- C)
O abandono de determinados vocábulos está associado a preconceitos socioculturais.
- D)
As gerações têm a tradição de perpetuar o inventário de uma língua.
- E)
O mundo contemporâneo exige a inovação do vocabulário das línguas.
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Perguntas frequentes
O que é preconceito linguístico?
Preconceito linguístico é a discriminação baseada em variedades linguísticas consideradas inferiores, geralmente associadas a grupos sociais menos prestigiados, como falares rurais ou de periferia.
Por que algumas palavras deixam de ser usadas?
Palavras podem cair em desuso por mudanças culturais, substituição por sinônimos, ou por serem estigmatizadas socialmente, como ocorre com termos associados a grupos marginalizados.
Qual a diferença entre gramática normativa e descritiva?
A gramática normativa prescreve regras consideradas corretas, enquanto a descritiva analisa o uso real da língua pelos falantes, sem julgamento de valor.
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