Sobre o tema
O poema "Sem acessórios nem som", de Armando Freitas Filho, integra a obra "Máquina de escrever: poesia reunida e revista" (2003) e oferece uma reflexão metaliterária sobre o processo criativo. O eu lírico descreve a escrita como um ato violento de supressão, utilizando imagens como "tesoura de jardim cega e bruta" e "facão de mato" para cortar palavras e conectivos. Essa representação foge da visão romântica da inspiração, enfatizando o trabalho agressivo de eliminação e o corte como elemento constitutivo do poema. A poesia, aqui, não surge do acréscimo, mas da poda, do que sobra após a eliminação do excesso. Compreender essa concepção é essencial para analisar poemas metalinguísticos e o papel do artifício na criação literária.
Tópicos relacionados
- Poesia brasileira contemporânea
- Metalinguagem na literatura
- Processo criativo em poesia
- Imagem poética e violência
- Armando Freitas Filho
Enunciado
Sem acessórios nem som
Escrever só para me livrar
de escrever.
Escrever sem ver, com riscos
sentindo falta dos acompanhamentos
com as mesmas lesmas
e figuras sem força de expressão.
Mas tudo desafina:
o pensamento pesa
tanto quanto o corpo
enquanto corto os conectivos
corto as palavras rentes
com tesoura de jardim
cega e bruta
com facão de mato.
Mas a marca deste corte
tem que ficar
nas palavras que sobraram.
Qualquer coisa do que desapareceu
continuou nas margens, nos talos
no atalho aberto a talhe de foice
no caminho de rato
FREITAS FILHO, A. Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.
Nesse texto, a reflexão sobre o processo criativo aponta para uma concepção de atividade
poética que põe em evidência o(a)
Alternativas
- A)
Angustiante necessidade de produção, presente em “Escrever só para me livrar/ de escrever”.
- B)
Imprevisível percurso da composição, presente em “no atalho aberto a talhe de foice/ no caminho de rato”.
- C)
Agressivo trabalho de supressão, presente em “corto as palavras rentes/ com tesoura de jardim/ cega e bruta”.
- D)
Inevitável frustração diante do poema, presente em “Mas tudo desafina:/ o pensamento pesa/ tanto quanto o corpo”.
- E)
Conflituosa relação com a inspiração, presente em “sentindo falta dos acompanhamentos/ e figuras sem força de expressão”.
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Perguntas frequentes
O que é metalinguagem na poesia?
Metalinguagem ocorre quando a obra reflete sobre si mesma ou sobre seu próprio processo de criação. Neste poema, o poeta discute o ato de escrever, usando imagens que representam o fazer poético.
Como o poema 'Sem acessórios nem som' representa o processo criativo?
O poema representa a criação poética como um ato violento de supressão, onde o poeta corta palavras e conectivos com ferramentas de jardim, indicando que a poesia surge da eliminação do excesso.
Qual a importância da imagem 'tesoura de jardim' no poema?
A tesoura de jardim simboliza a agressividade e a precisão do ato de cortar, reforçando a ideia de que escrever é podar, eliminar o supérfluo para que reste apenas o essencial.