Ano 2016#linguagens

Sobre o tema

O poema 'Sem acessórios nem som', de Armando Freitas Filho, aborda o processo criativo poético como um trabalho de supressão e corte, em que o poeta elimina excessos para alcançar a essência. A metáfora da tesoura de jardim cega e bruta e do facão de mato sugere uma ação agressiva e deliberada de poda das palavras, em contraste com a ideia romântica de inspiração fluida. A reflexão sobre a criação literária como um ato de violência controlada, onde o corte deixa marcas visíveis no texto final, é central para compreender a poesia contemporânea brasileira. O poema integra a obra 'Máquina de escrever: poesia reunida e revista' (2003), que reúne décadas de produção do autor, conhecido por sua linguagem concisa e metaliterária.

Tópicos relacionados

  • Processo criativo na poesia
  • Poesia contemporânea brasileira
  • Armando Freitas Filho
  • Metaliteratura e autorreflexão
  • Supressão e edição na escrita

Enunciado

Sem acessórios nem som

Escrever só para me livrar
de escrever.
Escrever sem ver, com riscos
sentindo falta dos acompanhamentos
com as mesmas lesmas
e figuras sem força de expressão.
Mas tudo desafina:
o pensamento pesa
tanto quanto o corpo
enquanto corto os conectivos
corto as palavras rentes
com tesoura de jardim
cega e bruta
com facão de mato.
Mas a marca deste corte
tem que ficar
nas palavras que sobraram.
Qualquer coisa do que desapareceu
continuou nas margens, nos talos
no atalho aberto a talhe de foice
no caminho de rato

FREITAS FILHO, A. Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

Nesse texto, a reflexão sobre o processo criativo aponta para uma concepção de atividade
poética que põe em evidência o(a)

Alternativas

  • A)

    Angustiante necessidade de produção, presente em “Escrever só para me livrar/ de escrever”.

  • B)

    Imprevisível percurso da composição, presente em “no atalho aberto a talhe de foice/ no caminho de rato”.

  • C)

    Agressivo trabalho de supressão, presente em “corto as palavras rentes/ com tesoura de jardim/ cega e bruta”.

  • D)

    Inevitável frustração diante do poema, presente em “Mas tudo desafina:/ o pensamento pesa/ tanto quanto o corpo”.

  • E)

    Conflituosa relação com a inspiração, presente em “sentindo falta dos acompanhamentos/ e figuras sem força de expressão”.

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Perguntas frequentes

O que é metaliteratura?

Metaliteratura é a literatura que reflete sobre si mesma, discutindo o ato de escrever, a linguagem e o papel do autor. No poema de Freitas Filho, isso aparece na descrição do processo de cortar palavras.

Qual a importância da edição na criação poética?

A edição é fundamental para eliminar excessos e alcançar precisão. O poema destaca que o corte agressivo de palavras deixa marcas que compõem a obra final, valorizando o trabalho de supressão.

Como a poesia contemporânea brasileira trata o processo criativo?

Frequentemente, a poesia contemporânea brasileira aborda o fazer poético de forma autorreflexiva, questionando a inspiração e enfatizando o trabalho artesanal com a linguagem, como visto em Freitas Filho.

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