Sobre o tema
O texto 'Mais iluminada que outras', de Jarid Arraes, aborda a construção da identidade a partir das marcas de violência de raça e gênero. A narradora descreve seu corpo com imagens de força e ferocidade, relacionando-as à história da escravidão no Brasil, especificamente ao levante que levou à abolição no Ceará quatro anos antes da Lei Áurea. A obra insere-se na literatura contemporânea brasileira que discute interseccionalidades, utilizando recursos expressivos como metáforas e enumerações para conectar o corpo individual à memória coletiva. Esta questão do ENEM 2023 avalia a capacidade do leitor de interpretar esses recursos e compreender como expressam a violência histórica e suas consequências na formação da subjetividade.
Tópicos relacionados
- Literatura contemporânea brasileira
- Identidade e corpo na literatura
- Escravidão no Brasil e abolição
- Gênero e raça na formação identitária
- Recursos expressivos na poesia
Enunciado
Mais iluminada que outras Jarid Arraes Tenho dois seios, estas duas coxas, duas mãos que me são muito úteis, olhos escuros, estas duas sobrancelhas que preencho com maquiagem comprada por dezenove e noventa e orelhas que não aceitam bijuterias. Este corpo é um corpo faminto, dentado, cruel, capaz e violento. Movo os braços e multidões correm desesperadas. Caminho no escuro com o rosto para baixo, pois cada parte isolada de mim tem sua própria vida e não quero domá-las. Animal da caatinga. Forte demais. Engolidora de espadas e espinhos. Dizem e eu ouvi, mas depois também li, que o estado do Ceará aboliu a escravidão quatro anos antes do restante do país. Todos aqueles corpos que eram trazidos com seus dedos contados, seus calcanhares prontos e seus umbigos em fogo, todos eles foram interrompidos no porto. Um homem — dizem e eu ouvi e depois também li — liderou o levante. E todos esses corpos foram buscar outros incômodos. Foram ser incomodados. Nesse texto, os recursos expressivos usados pela narradora
Alternativas
- A)
revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade.
- B)
questionam o pioneirismo do estado do Ceará no enfrentamento à escravidão.
- C)
reproduzem padrões estéticos em busca da valorização da autoestima feminina.
- D)
sugerem uma atmosfera onírica alinhada ao desejo de resgate da espiritualidade.
- E)
mimetizam, na paisagem, os corpos transformados pela violência da escravidão.
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Perguntas frequentes
Como o corpo é usado como símbolo na literatura brasileira contemporânea?
O corpo aparece frequentemente como locus de memória, resistência e violência, especialmente em autoras negras como Jarid Arraes, que o utilizam para expressar marcas históricas de opressão e empoderamento.
Qual a importância do Ceará na abolição da escravatura no Brasil?
O Ceará aboliu a escravidão em 25 de março de 1884, quatro anos antes da Lei Áurea, devido a movimentos abolicionistas e resistência de escravizados, como o levante liderado por Francisco José do Nascimento.
Como a interseccionalidade aparece na obra de Jarid Arraes?
Jarid Arraes aborda a interseção de raça, gênero e classe, mostrando como a violência contra a mulher negra se manifesta no corpo e na memória, ligando experiências individuais a contextos históricos.