Ano 2023#linguagens

Sobre o tema

A literatura contemporânea brasileira frequentemente explora a construção da identidade a partir do corpo, da memória histórica e das violências sociais. No trecho de Jarid Arraes, a narradora descreve seu corpo de forma fragmentada e poderosa, associando-o a uma ancestralidade de luta, como a abolição da escravatura no Ceará. Essa abordagem permite discutir como raça e gênero se entrelaçam na formação do sujeito, revelando marcas de opressão e resistência. Compreender esses recursos expressivos é essencial para a análise literária e para debates sobre identidade, corporeidade e justiça social.

Tópicos relacionados

  • Literatura brasileira contemporânea
  • Identidade e violência de gênero
  • Abolição da escravatura no Ceará
  • Corpo e resistência na literatura
  • Interseccionalidade em análise literária

Enunciado

Mais iluminada que outras

Tenho dois seios, estas duas coxas, duas mãos que me são muito úteis, olhos escuros, estas duas sobrancelhas que preencho com maquiagem comprada por dezenove e noventa e orelhas que não aceitam bijuterias. Este corpo é um corpo faminto, dentado, cruel, capaz e violento. Movo os braços e multidões correm desesperadas. Caminho no escuro com o rosto para baixo, pois cada parte isolada de mim tem sua própria vida e não quero domá-las. Animal da caatinga. Forte demais. Engolidora de espadas e espinhos. Dizem e eu ouvi, mas depois também li, que o estado do Ceará aboliu a escravidão quatro anos antes do restante do país. Todos aqueles corpos que eram trazidos com
seus dedos contados, seus calcanhares prontos e seus umbigos em fogo, todos eles foram interrompidos no porto. Um homem – dizem e eu ouvi e depois também li — liderou o levante. E todos esses corpos foram buscar outros incômodos. Foram ser incomodados.

ARRAES. J. Redemoinho em dia quente. São Paulo: Alfaguara, 2019.

Nesse texto, os recursos expressivos usados pela narradora

Alternativas

  • A)

    Revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade.

  • B)

    Questionam o pioneirismo do estado do Ceará no enfrentamento à escravidão.

  • C)

    Reproduzem padrões estéticos em busca da valorização da autoestima feminina.

  • D)

    Sugerem uma atmosfera onírica alinhada ao desejo de resgate da espiritualidade.

  • E)

    Mimetizam, na paisagem, os corpos transformados pela violência da escravidão.

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Perguntas frequentes

Como a literatura brasileira contemporânea aborda a violência de raça e gênero?

Autores como Jarid Arraes, Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus utilizam a corporeidade e narrativas pessoais para expor marcas históricas de opressão, entrelaçando raça, gênero e classe na construção da identidade.

Qual foi o papel do Ceará na abolição da escravatura no Brasil?

O Ceará foi pioneiro ao abolir a escravidão em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea, após intensa mobilização popular, como a greve dos jangadeiros e a atuação do líder abolicionista Francisco do Nascimento.

De que forma o corpo é usado como elemento narrativo na literatura?

O corpo pode simbolizar tanto a opressão quanto a resistência: fragmentado ou violentado, ele carrega memórias e identidades; empoderado, torna-se ferramenta de luta e afirmação.

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