Sobre o tema
A obra 'Dom Casmurro', de Machado de Assis, é um dos pilares da literatura brasileira, e sua personagem Capitu continua a gerar debates e reinterpretações. O texto de Domício Proença Filho exemplifica a prática de apropriação literária, na qual um autor se baseia em obra clássica para criar uma nova perspectiva. Ao dar voz a Capitu, questiona-se a narrativa unilateral de Bentinho e explora-se a subjetividade da memória. Esse tipo de exercício enriquece a compreensão da obra original e demonstra como a literatura pode ser um espaço de liberdade criativa e crítica.
Tópicos relacionados
- Dom Casmurro e Machado de Assis
- Capitu: enigma e interpretação
- Literatura e apropriação intertextual
- Narrativa póstuma em primeira pessoa
- Crítica literária e revisionismo
Enunciado
Capitu: memórias póstumas Domício Proença Filho #### Data venia Conheci Bentinho e Capitu nos meus curiosos e antigos quinze anos. E os olhos de água da jovem de Matacavalos atraíram-me, seduziram-me ao primeiro contato. Aliados ao seu jeito de ser, flor e mistério. Mas tomou-me também a indignação diante do narrador e seu texto, feito de acusação e vilipêndio. Sem qualquer direito de defesa. Sem acesso ao discurso, usurpado, sutilmente, pela palavra autoritária do marido, algoz, em pele de cordeiro vitimado. Crudelíssimo e desumano: não bastasse o que faz com a mulher, chega a desejar a morte do próprio filho e a festejá-la com um jantar, sem qualquer remorso. No fundo, uma pobre consciência dilacerada, um homem dividido, que busca encontrar-se na memória, e acaba faltando-se a si mesmo. Retomei inúmeras vezes a triste história daquele amor em desencanto. Familiarizei-me, ao longo do tempo, com a crítica do texto; poucos, muito poucos, escapam das bem traçadas linhas do libelo condenatório; no mínimo concedem à ré o beneplácito da dúvida: convertem-na num enigma indecifrável, seu atributo consagrador. Eis que, diante de mais um retorno ao romance, veio a iluminação: por que não dar voz plena àquela mulher, brasileira do século 19, que, apesar de todas as artimanhas e do maquiavelismo do companheiro, se converte numa das mais fascinantes criaturas do gênio que foi Machado de Assis? A empresa era temerária, mas escrever é sempre um risco. Apoiado no espaço de liberdade em que habita a Literatura, arrisquei-me. O resultado: este livro em que, além-túmulo, como Brás Cubas, a dona dos olhos de ressaca assume, à luz do mistério da arte literária e do próprio texto do Dr. Bento Santiago, seu discurso e sua verdade. Para apresentar a apropriação literária que faz da obra de Machado de Assis, o autor desse texto
Alternativas
- A)
relaciona aspectos centrais da obra original e, então, reafirma o ponto de vista adotado.
- B)
explica os pontos de vista de críticos da literatura e, por fim, os redimensiona na discussão.
- C)
introduz elementos relevantes da história e, na sequência, apresenta motivos para refutá-los.
- D)
justifica as razões pelas quais adotou certa abordagem e, em seguida, reconsidera tal escolha.
- E)
contextualiza o enredo de forma subjetiva e, na conclusão, explicita o foco narrativo a ser assumido.
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Perguntas frequentes
O que é apropriação literária?
Apropriação literária é quando um autor cria uma nova obra baseada em uma obra existente, utilizando elementos como personagens, enredo ou estilo, mas com uma perspectiva diferente, gerando um novo significado.
Por que Capitu é considerada um enigma?
Capitu é vista como enigmática porque a narrativa de 'Dom Casmurro' é contada por Bentinho, seu marido, e seus olhos de 'ressaca' são símbolo de uma ambiguidade que nunca é completamente esclarecida, gerando interpretações diversas.
Qual o efeito de uma narrativa póstuma?
A narrativa póstuma, como em 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', permite que o narrador fale além da morte, oferecendo uma perspectiva livre das convenções sociais, o que pode ser usado para revisitar e questionar versões oficiais dos fatos.