Sobre o tema
O fragmento do romance A falência (1901), de Júlia Lopes de Almeida, expõe o contraste entre a vida privilegiada da protagonista e a realidade de Sancha, uma jovem negra explorada no Brasil pós-abolição. A obra insere-se no contexto do pós-1888, quando a abolição formal da escravatura não significou integração social ou econômica para a população negra. A autora, uma das primeiras mulheres a publicar romances no Brasil, utiliza a narrativa para denunciar a permanência de relações de trabalho análogas à escravidão e a desigualdade estrutural. A cena reflete o olhar crítico da literatura naturalista e realista brasileira sobre as injustiças sociais, tema recorrente no ENEM.
Tópicos relacionados
- Pós-abolição e trabalho análogo à escravidão
- Literatura brasileira e crítica social
- Júlia Lopes de Almeida e o romance naturalista
- Desigualdade racial no Brasil republicano
- Exploração da mão de obra negra no pós-1888
Enunciado
A falência
Até ali que sabia das misérias do mundo? Nada. Aquela noite do Castelo, tão simples, tão monótona, fora uma revelação! Era bem certo que a lágrima existia, que irrompiam soluços de peitos oprimidos, que para alguém os dias não tinham cor nem a noite tinha estrelas! Ela, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céu, como dizia o dr. Gervásio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.
E aquela mesma mágoa parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se à outra, a Sancha, da sua idade, negra, feia, suja, levada a pontapés, dormindo sem lençóis em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanso nem paga!
Por quê? Que direito teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?
## A falência
Até ali que sabia das misérias do mundo? Nada. Aquela noite do Castelo, tão simples, tão monótona, fora uma revelação! Era bem certo que a lágrima existia, que irrompiam soluços de peitos oprimidos, que para alguém os dias não tinham cor nem a noite tinha estrelas! Ela, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céu, como dizia o dr. Gervásio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.
E aquela mesma mágoa parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se à outra, a Sancha, da sua idade, negra, feia, suja, levada a pontapés, dormindo sem lençóis em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanso nem paga!
Nesse fragmento do romance de Júlia Lopes de Almeida, escrito no cenário brasileiro pós-abolição, a narradora exprime um olhar crítico sobre a
Alternativas
- A)
desvalorização da arte produzida por mulheres.
- B)
mudança das condições de moradia do povo negro.
- C)
ruptura do projeto político de emancipação feminina.
- D)
exploração da força de trabalho da população negra.
- E)
disputa de poder entre brancos e negros no século 19.
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Perguntas frequentes
O que foi o período pós-abolição no Brasil?
Foi o período após a Lei Áurea (1888), quando a escravidão foi abolida, mas a população negra não recebeu acesso a terras, educação ou empregos formais, mantendo-se em condições de pobreza e exploração.
Como a literatura brasileira abordou a questão racial no início do século XX?
Autores como Júlia Lopes de Almeida, Aluísio Azevedo e Lima Barreto usaram o naturalismo e o realismo para denunciar o racismo estrutural e a exploração da população negra, contrastando com a idealização romântica anterior.
Qual a importância de Júlia Lopes de Almeida na literatura brasileira?
Ela foi uma das primeiras romancistas brasileiras a ganhar destaque, integrando o movimento naturalista e abordando temas como a condição feminina e a desigualdade racial com perspectiva crítica.