Ano 2023#portuguese#history

Sobre o tema

A transformação da linguagem no mundo do trabalho é um dos mecanismos mais sutis de dominação no capitalismo contemporâneo. Termos como 'colaborador', 'empreendedor de si' e 'líder' substituem antigas nomenclaturas, criando a ilusão de autonomia e parceria. Essa estratégia, analisada por Luc Boltanski e Ève Chiapello em 'O Novo Espírito do Capitalismo', revela como o sistema incorpora críticas sociais para neutralizá-las. Ao chamar o trabalhador de 'colaborador', apaga-se a relação hierárquica e de exploração, transferindo ao indivíduo a responsabilidade pelo próprio sucesso ou fracasso. A questão aborda essa manipulação linguística, essencial para compreender as novas formas de controle e precarização laboral na era financeira.

Tópicos relacionados

  • Crítica ao capitalismo financeiro
  • Eufemismos nas relações de trabalho
  • Boltanski e Chiapello, Novo Espírito do Capitalismo
  • Empreendedorismo e responsabilização individual
  • Linguagem e dominação social

Enunciado


TEXTO PARA AS QUESTÕES 16 E 17
Luc Boltanski e Ève Chiapello demonstram com clareza e
sagacidade a capacidade antropofágica do capitalismo
financeiro que "engole" a linguagem do protesto e da
libertação para transformá-la e utilizá-la para legitimar a
dominação social e política a partir do próprio mercado.
Na dimensão do mundo do trabalho, por exemplo, todo
um novo vocabulário teve que ser inventado para escamotear
as novas transformações e melhor oprimir o trabalhador. Com
essa linguagem aparentemente libertadora, passa-se a
impressão de que o ambiente de trabalho melhorou e o
trabalhador se emancipou.
Assim houve um esforço dirigido para transformar o
trabalhador em "colaborador", para eufemizar e esconder a
consciência de sua superexploração; tenta-se também exaltar
os supostos valores de liderança para possibilitar que, a partir
de agora, o próprio funcionário, não mais o patrão, passe a
controlar e vigiar o colega de trabalho. Ou, ainda, há a intenção
de difundir a cultura do empreendedorismo, segundo a qual
todo mundo pode ser empresário de si mesmo. E, o mais
importante, se ele falhar nessa empreitada, a culpa é apenas
dele. É necessário sempre culpar individualmente a vítima pelo
fracasso socialmente construído.
SOUZA, Jessé. Como o racismo criou o Brasil. Rio de Janeiro: Estação Brasil,
2021.
De acordo com o texto, o uso de "colaborador" no lugar de
"trabalhador", no campo das relações de trabalho, indica

Alternativas

  • A)

    o apagamento da linguagem de reivindicação e a falsa
    ideia de um trabalhador fortalecido.

  • B)

    a valorização do trabalhador vigiado pelo Estado nas
    tradicionais relações empregatícias.

  • C)

    a difusão da cultura da meritocracia, que fortalece as
    relações do trabalhador com o Estado.

  • D)

    a consciência do patrão que rejeita a cultura do
    neoliberalismo.

  • E)

    o impedimento de o trabalhador investir na prática do
    empreendedorismo.

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Perguntas frequentes

O que é o 'novo espírito do capitalismo' segundo Boltanski e Chiapello?

É a ideologia que justifica o engajamento no capitalismo, adaptando-se às críticas e incorporando valores como autonomia, criatividade e flexibilidade, enquanto aprofunda a exploração.

Como o termo 'colaborador' encobre a exploração?

Ao substituir 'trabalhador' ou 'empregado', o termo 'colaborador' sugere uma relação voluntária e igualitária, ocultando a hierarquia e a extração de mais-valia, além de responsabilizar o indivíduo por seu desempenho.

Qual a relação entre linguagem e dominação no capitalismo contemporâneo?

A linguagem é usada para naturalizar relações de poder e fazer com que os dominados aceitem sua condição. Eufemismos como 'colaborador' desviam o foco das contradições estruturais, individualizando problemas coletivos.

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